Há quem vá pedir reembolso aos médicos grevistas

“Isto é fazer pouco das pessoas.” Ainda com dois sacos de roupa, um em cada mão, Eurico Esperança abandonava desalentado o hospital de Bragança.

Os últimos dias foram uma estafa para este mogadourense, já na casa dos setenta. Na terça-feira teve de vir a Bragança entregar a mulher ao hospital, para uma operação à vesícula marcada há duas semanas. Um dia depois teve de ir buscá-la, ainda com as pedras na vesícula. “Ligaram-me por volta do meio-dia para vir buscá-la. Agora vou pedir ao médico para me reembolsar do dinheiro que gastei em gasóleo. Hoje não, que já não tenho tempo, mas da próxima vez é certinho. Afinal, são eles que o ganham”, exclama. É que entre Bragança e Mogadouro são uma centena de quilómetros, nem sempre pelas melhores estradas do país. “Nestes dois dias vim duas vezes. Já tinha vindo à consulta e agora tenho de a voltar a trazer para ser operada no dia dois”, conta. É por este tipo de situações que está “contra as greves”. “Não mudam nada. O Governo faz o que quer na mesma.”

Melhor sorte teve Maximiana Teixeira. Veio de Passos, uma aldeia de Mirandela, a 60 quilómetros da capital de distrito, para uma consulta no otorrinolaringologista. Ainda ligou antecipadamente. “Mas não disseram nada, não avisam as pessoas se há consulta ou não. Acho isso mal”, diz. Ao fim de meia hora de espera, nos bancos ali postos para o efeito na zona de consultas externas do hospital de Bragança, lá apareceu o médico. “É espanhol, não faz greve”, sussurrava uma das duas funcionárias do atendimento.

Neste dia de greve geral, o número de utentes “baixou muito”. “Hoje é um descanso. Nunca estamos assim, é sempre a abrir”, sublinha. Quanto às queixas, e foram “muitas” ao longo do dia, lamenta. “Só podemos avisar as pessoas quando sabemos que vai haver consultas”, explica. Cardiologia, anestesiologia e oftalmologia são as especialidades com consultas canceladas. “Foram muitas consultas que não se realizaram”, adianta uma colega.

No hospital, serviços como a Unidade de Cuidados Intensivos ou a obstetrícia tiveram uma adesão de cem por cento. Mas com a necessidade de cumprir serviços mínimos, o protesto dos enfermeiros diluiu-se um pouco, para lamento de Telmo Afonso, o delegado sindical. “Há muito descontentamento, mas com os serviços mínimos não temos hipótese.” No geral, entre os enfermeiros a greve chegou aos 70 por cento.

Esta foi mesmo a face mais visível de uma greve com poucos efeitos práticos no Nordeste Transmontano. De manhã, o avião que diariamente faz a ligação entre Bragança, Vila Real e Lisboa não levantou do aeródromo brigantino. A Aerovip avisara na véspera que todos os voos seriam cancelados. Assim, desprevenidos só os dois agentes da GNR que diariamente fazem o acompanhamento do embarque. “Por hoje já está, foi rápido”, comentava um deles à reportagem do PÚBLICO pouco depois das sete da manhã.

Na cidade, o maior temor era que houvesse grande adesão dos motoristas do Serviço de Transportes Urbano de Bragança (STUB), que podiam, em último caso, levar ao encerramento das escolas. Mas as sete linhas rurais foram todas efectuadas. Apenas duas das quatro linhas urbanas não se realizaram. Segundo a autarquia, a greve dos serviços rondou os 17 por cento.

A nível distrital, os CTT tiveram 40 por cento de paralisação. “Mas há números muito díspares”, adianta Carlos Alves, do Sindicato. “Em Torre de Moncorvo, dos cinco funcionários só a chefe da estação é que está a trabalhar. Em Freixo de Espada à Cinta, dos quatro funcionários, dois não apareceram. Mas em Bragança estão todos os do atendimento ao público. No Centro de Distribuição Postal é que pararam 11 dos 21 funcionários”, explicou.

Na Segurança Social, nenhum dos cinco funcionários do atendimento compareceu. “Do universo da equipa de atendimento temos uma pessoa mais a chefe de equipa e teremos o apoio das pessoas que não estão a fazer atendimento, na eventualidade de haver picos. Mas a percepção que tive é que estão a vir menos pessoas do que é normal”, explicava Teresa Barreira, a directora regional, ao início da manhã.

O único constrangimento foi à hora de almoço. Entre as 13h00 e as 14h00 o serviço teve de encerrar. “Ó, não há problema. Já cá vim noutros dias sem ser de greve e também estavam fechados à hora de almoço”, comentava Fernanda Rodrigues, a primeira da fila que entretanto se formou, pouco antes das 14h00. “Será que já não abrem mais”, perguntava, a medo, Maria Piedade. Receio infundado. Às duas em ponto, as portas abriram.Na repartição de Finanças, nove dos 28 funcionários fizeram greve, pelo que a tesouraria esteve fechada.

Também fechado esteve o centro de saúde da Sé, um dos dois da cidade. É que os 16 funcionários administrativos aderiram à paralisação, tal como três dos nove médicos e oito dos dez enfermeiros. Resultado, não houve consultas para ninguém. Um cenário completamente diferente do centro de saúde de Santa Maria, inaugurado há ano e meio. “Está tudo normalmente”, comentava Alexandre Aleixo, enquanto esperava uma consulta, que confirmou antes de sair de casa.

A educação, e ao contrário do previsto, também foi pouco afectada. Apenas a escola primária das Beatas encerrou portas na cidade. Ou melhor, nem as abriu. “Pois, está fechada a cadeado. Será por causa da greve?”, comentava uma mãe, apanhada desprevenida. “Ninguém avisou. Agora tenho de levar a minha filha comigo para o trabalho.”

Segundo o Grupo de Apoio às Escolas da Terra Fria e Arribas, que engloba os concelhos de Bragança, Vinhais, Vimioso, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta e Miranda do Douro, encerraram durante o dia houve uma adesão de cerca de dez por cento entre professores e funcionários. “Não abriu o jardim de infância de Salsas (Bragança), a EB1 e jardim de infância de Argoselo (Vimioso), o centro escolar de Freixo, e dois jardins de infância de Vinhais (Moimenta e Vilar de Lomba)”, adiantou Luís Martins, o coordenador.

Números que fazem José Domingues, do Sindicato de Professores do Norte desconfiar. “Parece-me que há mais escolas encerradas e mais de dez por cento dos professores em greve”, diz. O problema é que também o funcionário do sindicato fez greve, o que dificultou a recolha de informação.

No tribunal, os trabalhos decorrem normalmente, tal como no registo civil. Encerrado só mesmo o registo predial.
por: António Gonçalves Rodrigues, in: Público

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